Capitulo 1- Algo Está Errado
Gritos abafados ecoavam pela caverna sombria.
No chão frio e úmido, uma mulher jazia imóvel, a cabeça coberta por um saco áspero. Seu corpo frágil tremia, os grilhões invisíveis do medo apertando sua alma.
Um homem de capuz negro ajoelhou-se ao lado dela. Com movimentos precisos e frios, amarrou seus braços e pernas delicadas, impedindo qualquer resistência.
Em seguida, retirou o saco de sua cabeça. Seu rosto estava sujo de areia e lágrimas, os olhos cerrados como se recusassem a encarar a realidade. Mas mesmo em seu estado de desespero, ela era deslumbrante—cabelos dourados caindo sobre a pele pálida, lábios tentadores entreabertos, uma visão de beleza profana.
Um sacrifício perfeito.
O homem de capuz ergueu a mão e desferiu um tapa violento contra seu rosto. O estalo ecoou pelas paredes rochosas, e uma marca avermelhada surgiu em sua pele alva. A mulher acordou com um grito abafado de dor, mas sua voz era inútil. Sua boca estava tapada.
Ninguém poderia ouvi-la.
Ninguém poderia salvá-la.
O encapuzado sorriu e começou a desenhar símbolos no chão com tinta verde, traçando cada linha com reverência. Sua voz soou baixa, quase um sussurro hipnótico:
— Fique tranquila... é por um bem maior, jovem Nefertiti.
O símbolo que tomava forma diante dele era uma estrela de cinco pontas circundada, suas linhas entrelaçadas formando uma rede geométrica complexa e esotérica. Os dedos do homem tremiam de excitação enquanto finalizava o desenho.
— Sua morte servirá para o nascimento das estrelas. Você é a terceira virgem. Logo, a primeira estrela nascerá após seu sacrifício.
Ele segurou a jovem com facilidade e a deitou sobre o pentagrama ancestral. Seus olhos brilhavam com êxtase enquanto falava:
— O Grande Ancião despertará… e você será uma peça essencial. Deveria se sentir honrada.
Então, ele ergueu os braços e começou a entoar palavras inumanas. Sua voz reverberava de forma antinatural, como se não fosse apenas sua boca que falasse, mas algo antigo, algo cósmico, algo além da compreensão humana:
— N'ghft mgepah mgleth, li'heeagl hupadgh, Y’hah fhtagn zhro éons nw'ghft mgepah mgleth!
O ar na caverna pareceu vibrar. Sombras dançaram nas paredes, moldando-se em figuras distorcidas, observando, aguardando.
— Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn, Zhai’lash fhtagn, nafl’bthnk mgepah hupadgh!
A temperatura caiu abruptamente. Algo invisível sussurrou entre as rochas.
Sem hesitar, o homem puxou uma adaga do bolso e cortou os pulsos e o pescoço da jovem. O sangue quente se espalhou sobre os símbolos, impregnando o chão com sua essência. Mas antes que seu último suspiro escapasse, ele esmagou sua cabeça sob seu pé, concluindo o ritual em um estalo grotesco.
O silêncio dominou a caverna.
Satisfeito, o homem saiu do local e ergueu o olhar para a cidade que brilhava sob a luz do dia.
Um sorriso se formou em seus lábios.
— Eu queria tanto ver as proles do meu senhor… que pena.
Um jovem moreno de cabelos curtos, olhos castanhos escuros e corpo atlético caminhava pelas ruas de Nova Osíris. A cidade parecia comum como qualquer outra—pessoas seguiam apressadas para o trabalho naquela manhã, enquanto o sol brilhava sobre prédios e casas, projetando sombras pelas ruas.
O jovem caminhou até chegar a uma cafeteria. O lugar era simples e aconchegante, com algumas cadeiras e mesas dispostas do lado de fora. O aroma do café impregnava o ar, envolvendo quem passava por ali.
Ele entrou e cumprimentou a atendente—uma garota pequena, mas com um olhar feroz. Sua pele escura possuía algumas manchas brancas, e seus cabelos encaracolados emolduravam seu rosto.
— Como vai, Cibele?
Ela, que estava concentrada lendo algo, levantou o olhar e retribuiu o cumprimento de Laab:
— Estou bem. — Seu sorriso era lindo e acolhedor. Após uma breve pausa, continuou: — Acho melhor você colocar seu uniforme logo, Laab. Hoje vai ser só eu, você e Omar na loja.
Laab sorriu, concordou com a cabeça e foi para os fundos da cafeteria se trocar. Quando voltou, viu outro jovem entrando. Ele tinha a pele escura e os cabelos presos em um rabo de cavalo.
— Por que você não foi para casa ontem? — perguntou Laab.
Omar olhou para ele e sorriu de canto.
— Lembra da Ísis...? — começou ele.
Laab o interrompeu com um sorriso animado:
— Calma, me conta depois.
Omar riu e foi se trocar. Antes de ele entrar nos fundos, Laab gritou:
— Eu quero saber de tudo em detalhes!
— Tá bom! — respondeu Omar, sem olhar para trás.
Omar e Cibele eram seus melhores amigos, eram sua única família.
Laab foi abandonado por seus pais quando tinha apenas quatro anos. Deixado chorando na porta de um orfanato, não se lembrava de nada sobre sua vida antes daquilo—exceto por uma única coisa:
Seu nome. Laab.
Omar perdeu os pais por yokais quando tinha cinco anos e acabou sendo levado para o mesmo orfanato. Em poucos dias, ele e Laab se tornaram melhores amigos.
Quando completaram seis anos, foram matriculados em uma escola de Nova Osíris, próxima ao orfanato. No primeiro dia de aula, conheceram Cibele e logo se tornaram inseparáveis.
Brincavam e brigavam juntos. Tudo o que faziam, faziam juntos. Eram tão próximos que, quando completaram dezesseis anos, os pais de Cibele contrataram Laab e Omar para trabalharem na cafeteria da família. Além disso, ajudaram os dois a encontrarem uma casa onde pudessem morar depois de saírem do orfanato.
Laab amava Cibele e Omar como se fossem seus irmãos. Eles eram sua família. Sua vida não era perfeita, mas chegava perto.
Nada poderia dar errado.
Laab foi arrumar algumas mesas fora do estabelecimento. Olhou ao redor e, por um instante, sentiu-se estranho, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer.
Um mau presságio.
Ele ignorou a sensação e, depois de terminar de organizar as mesas, atendeu um cliente.
Era um homem de meia-idade, muito alto, provavelmente com no máximo quarenta anos. Seus cabelos eram claros e longos, chegando até os ombros. Seu sorriso era ligeiramente perturbador, e seus olhos, sombrios. Algumas moscas zumbiam ao seu redor, mas, estranhamente, ele não exalava cheiro ruim.
Mesmo sentindo um desconforto crescente, Laab manteve a compostura e o atendeu com um sorriso:
— Bom dia! O que vai querer, senhor?
O homem ergueu o olhar, seus olhos sombrios parecendo ainda mais ocultos sob a luz do sol. Com uma voz rouca e fria, respondeu:
— Vou querer um café preto com adoçante e um pedaço desse bolo.
Ele apontou para um bolo exposto na vitrine da cafeteria.
Laab anotou o pedido, mas, enquanto escrevia, percebeu que o homem o encarava fixamente, como se tentasse se lembrar de algo.
— Algum problema, senhor? — perguntou Laab, sentindo-se desconfortável.
O homem abriu um sorriso absurdamente bizarro, tão assustador que fez Laab sentir um zumbido nos ouvidos.
— Estou bem, não se preocupe… — disse o homem, animado demais para a situação.
Pouco tempo depois, Laab entregou o pedido. O homem comeu em silêncio e, logo, foi embora. Ainda assim, a sensação incômoda permaneceu. Na verdade, piorou.
O mau presságio crescia dentro dele como um veneno.
Sem conseguir ignorá-lo, Laab se aproximou de Omar e Cibele, que estavam limpando algumas mesas, e perguntou:
— Vocês estão sentindo isso?
Os dois pararam o que estavam fazendo e o olharam confusos.
— Não… Sentindo o quê? — responderam em uníssono.
Laab hesitou.
— Nada… — respondeu, tentando afastar a sensação ruim. Então, forçando-se a mudar de assunto, olhou para Omar com um sorriso malicioso. — Agora me fala, o que aconteceu entre você e Ísis?
Cibele abriu um sorriso animado e se virou para Omar:
— Isso, vai contando! Eu quero a história inteira, com todos os detalhes.
— Eu também. — adicionou Laab, rindo.
Omar ficou um pouco envergonhado, mas acabou sorrindo.
— Então… Eu encontrei com ela no curso ontem e—
Um estrondo ensurdecedor interrompeu sua fala.
Seguido por gritos.
Laab sentiu um arrepio na espinha.
— Que merda… — murmurou para si mesmo.
Aquela sensação ruim não era apenas um pressentimento.
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